2. O eucalipto esteriliza o solo? (O eucalipto exaure os nutrientes ou impede que outras plantas cresçam perto dele?) E-mail
Seg, 29 de Agosto de 2011 08:27

A exaustão dos nutrientes do solo e o impedimento do crescimento e desenvolvimento de outras espécies nas vizinhanças é um mito que, na atualidade, só serve de mote utilizado por quem desconhece as modernas técnicas de manejo florestal sustentável e de solo.

Mais uma vez o manejo e a rotação dentro dos conceitos de sustentabilidade, atentando para a ciclagem de nutrientes, as partes a serem aproveitadas e o tipo de solo, são essenciais para evitar excessivo custo nutritivo. É natural que a colheita exporte nutrientes que devem ser repostos a cada ciclo da cultura, seja por adubos químicos ou por meio de adubação verde. No entanto, a valorização dos processos de ciclagem de nutrientes e a permanência na área das partes com maiores proporções de nutrientes favorecem a manutenção da fertilidade do solo e a redução do custo de recomposição dos níveis originais.

Numa floresta de E. saligna com 10 anos de idade, por exemplo, a parte aérea pode conter a maior quantidade de N, K, Ca e Mg nas folhas e ramos. O P, que é um elemento deficiente na maioria dos solos tropicais, pode apresentar 50% de seu total na madeira do tronco e 50% no restante da parte aérea (folhas, ramos, casca) (1).

Exportar, além do tronco, a casca, ramos e folhas, sim, pode levar à exaustão. Mesmo porque, a reposição via fertilizante químico torna-se cada dia mais insustentável, do ponto de vista dos conceitos de desenvolvimento sustentável. A redução dos montantes de aplicação destes insumos passa a ser, portanto, imperativa.

Quanto ao desenvolvimento de plantas próximo aos eucaliptos. Em geral a idéia que se tem é que processos alelopáticos destas árvores chegam a impedir o desenvolvimento de outras plantas nos cultivos de eucalipto. Acredita-se que esse seja o motivo de não se encontrar sub-bosque em muitos eucaliptais. No entanto, como explicar o crescimento de alguns gêneros de gramíneas e até mesmo de muitas espécies de plantas nativas no sub-bosque ? É possível, no entanto, que em regiões de baixa precipitação pluviométrica, efeitos alelopáticos podem ser intensificados.

E o sucesso dos sistemas agroflorestais (SAF) com eucalipto? Planta-se em conjunto com ele o arroz, sorgo, milho, feijão, soja, colonião e braquiaria, por exemplo, sem sinais de efeitos alelopáticos. Estudos com possíveis fatores limitantes à produção de biomassa de Panicum spp. em SAF com E. urophylla concluíram ser improvável um efeito alelopático, concluindo que a deficiência de N era a causa da redução da produção da gramínea, descartando também, naquele caso, o sombreamento (2).

É mais provável, portanto, que as dificuldades de desenvolvimento de plantas de outras espécies próximas ou sob eucalipto estejam relacionadas aos níveis de sombreamento provocado em geral por espaçamentos reduzidos, além de problemas nutricionais e de competição por água em nível da rizosfera. Em SAF, parece que as dificuldades deixam de existir ou se reduzem bastante, em função da menor densidade de árvores. Qualquer espécie de árvore, plantada na densidade que se cultiva o eucalipto em plantios homogêneos, geraria as mesmas restrições ao desenvolvimento de outras.

Como regras básicas para evitar possíveis efeitos alelopáticos em plantios de eucalipto nunca se deve cultivá-lo em regiões de precipitação abaixo de 400 mm; ter manejo cuidadoso quando esta for entre 400 e 1200 mm; sem restrições quando for acima de 1200 mm (3).

Referências:

1.FAO - FOOD AND AGRICULTURAL ORGANIZATION. O dilema eucalipto. Roma: FAO, 1989. 26 p.

2.ANDRADE, C. M. S. et al. Fatores Limitantes ao Crescimento do Capim-Tanzânia em um Sistema Agrossilvipastoril com Eucalipto, na Região dos Cerrados de Minas Gerais. Revista Brasileira de Zootecnia, Viçosa, v. 30, n. 4, p. 1178-1185, 2001.

3.FAO - FOOD AND AGRICULTURAL ORGANIZATION. Bio-physical and environmental impacts of eucalyptus plantations. In: REGIONAL EXPERT CONSULTATION ON EUCALYPTUS, Bangkok. Proceedings... Bangkok: FAO Regional Office For Asia And The Pacific, 1993. (Group Reports, I).