1. Qual o impacto ambiental na mudança da atividade pecuária para silvicultura de eucalipto em grande escala? E-mail
Seg, 29 de Agosto de 2011 15:50

É preciso considerar, em primeiro lugar, que a monocultura florestal, que apresenta impactos negativos importantes ao meio ambiente, deve sempre ser priorizada para áreas marginais: terras onde a agropecuária torna-se inviável do ponto de vista técnico, econômico e social.

Se essa premissa for empregada, o investimento florestal, além de beneficiar a sociedade, também acaba por ser útil na conservação dos solos, proteção de bacias e se bem planejado do ponto de vista ambiental, certo grau de aumento na biodiversidade dependendo do meio onde são implantadas as culturas florestais.

O indicador social impactante mais visível aos olhos de quem está de fora é aquele relacionado aos postos de trabalho gerados pela atividade florestal, especialmente com eucalipto. Em geral pode-se considerar que para cada 100 ha de área reflorestada são gerados sete empregos. Interessante comparar com as culturas dos citrus, com a da soja e a cana de açúcar: no primeiro caso, a geração de emprego é da ordem de 11 postos para cada 100 ha , no segundo,  cinco e no terceiro, 31 (1) se a colheita for manual.

Em contraposição à pequena necessidade de mão-de-obra em uso nos atuais modelos de cultivos de eucalipto no Brasil, encontra-se ela mesma, a mão-de-obra, como vilã em diversas regiões onde ela é escassa.

No entanto, é importante atentar para o fato de que há grandes variações nesse indicador, dependendo do nível de tecnologia utilizado e do valor da mão-de-obra, principalmente. Mas para discutir essas questões devem-se levar em conta dois aspectos: a) se houver um zoneamento agroecológico bem elaborado conseqüentemente o cultivo de florestas não será realizado em terras aptas para a agricultura e pecuária; b) se não houver investimentos nas terras aptas para culturas agrícolas, o investimento em cultivo de árvores deve ser opção a se considerar.

De qualquer modo, a falta de estudos de impactos ambientais, ou pouco esclarecedores, são os principais responsáveis pela ampliação das áreas ocupadas pelos monocultivos florestais, em locais tecnicamente destinados à produção de alimentos e agricultura familiar.

Uma coisa é certa. Substituir terras agrícolas por monocultivos florestais, independente se é com eucalipto ou não, pode ser visto como atitude anti-social. Mas a questão básica é sobre a conversão da pecuária em monocultivos florestais. No Mato Grosso do Sul isso tem ocorrido em áreas impróprias para a agricultura familiar e onde é dominante a pecuária extensiva. Na conversão desta para a atividade florestal, sempre há problemas com a falta de trabalhadores, pois se passa do emprego de 0,23 trabalhador permanente para cada 100 ha de pasto (um operário para 428 ha) (2), para sete postos.

É comum a comparação de que três cortes de eucaliptos (21 anos) representam a produção de seis gerações de bois, à base de duas cabeças por hectare. Essa assertiva merece algumas considerações: é muito difícil produzir duas cabeças de boi de corte por hectare em pecuária extensiva, haja vista a qualidade dos pastos e a quantidade deles já degradada. Estima-se que metade das áreas de pastagens dos cerrados estejam degradadas. Há 10 anos já havia afirmações de que na Amazônica, essa estimativa já atingia 22% (3). Atualmente, segundo a EMBRAPA, 85% das pastagens brasileiras encontram-se degradadas (4) e na Amazônia existem 22,4 milhões de ha nestas condições (5). A produtividade bovina nessas áreas é, portanto, baixa, em muitos casos não atingindo nem uma cabeça por hectare. O retorno econômico é baixo e a recuperação destas áreas muito onerosa, chegando a ser de duas a três vezes o custo de um novo desmatamento, o que por si é um incentivo à abertura de novas áreas (6). Nesse caso específico, é positivo o impacto da substituição de áreas de pastagens por reflorestamento, tanto do ponto de vista ambiental quanto econômico.

É também fato que a conversão de florestas naturais em áreas de cultivo altera o equilíbrio natural, modificando as propriedades do solo. Comparando propriedades físicas de quatro solos sob mata nativa e sob cultivo em diferentes sistemas de manejo, constatou-se que houve degradação da estrutura do solo cultivado, comprovada pelo aumento da densidade do solo, diminuição da porosidade total e diminuição da taxa de infiltração da água (7). Isso significa que a substituição de pastagem por eucaliptais ou outra espécie arbórea qualquer, não provocará mais danos aos solos do que o que já teria sido causado pela conversão original.

Nas áreas de pastagens degradadas, não só a qualidade físico-química do solo é comprometida, como também o controle à erosão em geral é deficiente. Nos reflorestamentos produtivos e bem manejados, normalmente as técnicas de conservação de solo são mais valorizadas, reduzindo o transporte de partículas das camadas superficiais.

Esses são, em minha opinião, pontos que devem ser considerados em uma avaliação de impactos ambientais, como aspectos significativos da conversão pastagens/reflorestamentos.

Referências:

1.PINO, F. A. et al. Modelling rural labor: an application to Sao Paulo, Brazil. Revista de Estatística Aplicada, São Paulo, v. 6, n. 2, p. 411-427, 2002.

2.VERÍSSIMO, A.; ARIMA, E.; BARRETO, P. A derrubada de mitos amazônicos: proposta de alteração do Código Florestal parte de ideias equivocadas sobre a Amazônia, que tem mais vocação florestal do que agrícola. Folha de São Paulo, São Paulo, 28 Maio 2000. Caderno MAIS, p. 26-28.

3.TOWNSEND, C. R.; COSTA, N. L.; PEREIRA, R. G. A. Renovação de pastagens degradadas em consórcio com arroz de sequeiro, na Amazônia ocidental. In: REUNIÃO ANUAL DA SOCIEDADE BRASILEIRA DE ZOOTECNIA, 36, Porto Alegre. Proceedings... Porto Alegre: Universidade Federal do Rio Grande do Sul, 1999.

4.MORAES, A. D. Amazônia tem um Amazonas em pastagens degradadas. [01 de Abril de 2009] Globo.com, Rede Globo, Vozes do Clima. Entrevista concedida a BOURSCHEIT, A.

5.SALOMON, M. Amazônia tem um Reino Unido em pastos degradados. Folha de São Paulo, São Paulo, 05 Junho 2009. (Sucursal de Brasília).

6.VALENTIM, J. F.; AMARAL, E. F.; MELO, A. W. F. Zoneamento de risco edáfico atual e potencial da morte de pastagens de Brachiaria brizantha no Acre. Rio Branco: Embrapa Acre, 2000. 26 p. (Boletim de Pesquisa, 29).

7.ANJOS, J.  . et al. Propriedades físicas em solos sob diferentes sistemas de manejo. Revista Brasileira de Ciência do Solo, Campinas, v. 18, p. 139-145, 1994.